Reconhecida pelo jornal britânico The Times, Boipeba, tem cerca de 4 mil moradores, foi fundada em 1537 e só é acessível de barco ou avião
Numa ilha onde o relógio parece correr mais devagar, não existe som de motor, buzina ou asfalto, só o barulho do mar, dos coqueiros e das vielas de areia por onde só se anda a pé, de bicicleta ou de trator. É nesse cenário quase intocado, a quase 500 anos de distância de sua fundação pelos jesuítas, que a Ilha de Boipeba, no município de Cairu, Baixo Sul da Bahia, acaba de conquistar um capítulo raro: foi destacada pelo jornal britânico The Times — um dos periódicos mais tradicionais e influentes do Reino Unido, fundado em 1785 — como um dos destinos brasileiros que o mundo ainda está prestes a descobrir.
A vila mais antiga da ilha, Velha Boipeba, teve origem em 1537, quando jesuítas fundaram ali a Aldeia e Residência de Boipeba, uma das ocupações mais antigas do litoral baiano. Hoje a ilha reúne cerca de 4 mil habitantes distribuídos entre a Velha Boipeba e os povoados de Moreré, São Sebastião (Cova da Onça) e a comunidade quilombola de Monte Alegre, segundo dados do Museu de Boipeba. A região integra a Área de Proteção Ambiental de Tinharé-Boipeba e é reconhecida pela UNESCO como parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.
Chegar até lá exige tempo e planejamento: não existe ponte nem estrada de acesso direto. As opções mais comuns partem de Salvador rumo a Valença ou Graciosa, por terra, seguidas de travessia de lancha rápida — trajeto que pode levar de 5 a 6 horas — ou passam por Morro de São Paulo, combinando catamarã e lancha. Há ainda a alternativa aérea, com táxis aéreos que fazem o trajeto em cerca de 30 minutos. É justamente essa dificuldade de acesso, somada à baixa densidade de ocupação, que preserva o que o The Times chamou de natureza intocada e turismo em pequena escala.
Tradição que atravessa séculos
Parte do que sustenta esse reconhecimento é justamente a força da cultura local. A Igreja do Divino Espírito Santo, erguida pelos jesuítas ainda no século XVII, é o monumento mais antigo da ilha e dá nome à Festa do Divino Espírito Santo, celebrada em Boipeba desde 1616 — quando o então bispo de Salvador, Dom Constantino Barradas, criou a freguesia do Divino Espírito Santo na ilha. A festa acontece todos os anos, sete semanas após a Páscoa, e reúne novenário, lavagem da igreja, procissão marítima em homenagem a São Francisco (padroeiro dos pescadores locais) e manifestações populares como capoeira e candomblé, num dos eventos religiosos mais antigos e tradicionais do estado.
Para o prefeito de Cairu, Hildécio Meireles, a preservação dessas tradições é o que sustenta o desenvolvimento da região. Segundo ele, são os moradores de Boipeba que “preservam a cultura e garantem o caminho do progresso, com união e solidariedade”.
Cinco programas para viver a ilha além da praia
1. Piscinas Naturais de Moreré — recifes de águas calmas e transparentes, ideais para mergulho livre, a poucos minutos de barco da vila.
2. Trilha até a Praia de Castelhanos — travessia por trecho de Mata Atlântica até uma das praias mais preservadas e desertas do arquipélago.
3. Igreja e Memorial do Divino Espírito Santo — visita ao templo jesuítico do século XVII e ao acervo histórico da ilha.
4. Praia da Cueira — extensa faixa de areia com barracas rústicas, boa para long boarding e vôlei de praia.
5. Vivência cultural na Festa do Divino Espírito Santo (Pentecostes) — para quem viaja na época certa, experiência de novenário, romaria marítima e festejos populares únicos no Brasil.
O reconhecimento internacional chega em um momento estratégico para o calendário turístico do Baixo Sul: Boipeba sediará, entre 30 de outubro e 1º de novembro, a 1ª edição do Festival de Primavera de Boipeba, em conjunto com a já tradicional 10ª edição do Festival de Primavera de Morro de São Paulo, de 4 a 6 de dezembro. A edição anterior do festival em Morro de São Paulo reuniu mais de 19 mil pessoas e movimentou cerca de R$ 8 milhões na economia local, segundo a organização do evento.
